Reheniglei Rehem - PUC-SP/UESC
Com a multiplicidade de ângulos, recortes e objetos que a contemporaneidade contempla, as diversificadas, muitas vezes paradoxais questões culturais tornam-se previsíveis neste início de novo milênio e comemorações de cinco séculos de “descobrimento” do Brasil. Questões como as fronteiras e convivências das diferenças culturais entre Brasil e Portugal, foram as circunstâncias que definiram o tema desta comunicação.
O presente texto se articula a partir da discussão de alguns conceitos da Semiótica da Cultura, principalmente o de semiosfera, entendido como um espaço que possibilita a realização de procedimentos comunicativos e a produção de novas informações via as relações dialógicas entre diferentes códigos culturais, tais como: etnia, língua, arte, religião e comunicação, dentre outros. Para Iuri Lotman (1993), na luta pela vida o homem se insere em dois processos, de um lado como consumidor de coisas e, de outro, como acumulador de informações. Dessa forma, a cultura é vista como um conjunto de informações não –hereditárias que são armazenadas e transmitidas por um determinado grupo. Uma vez que a cultura compõe-se de traços distintivos, a contínua retroalimentação realizada pelas trocas informacionais garante a eficiência das mensagens no intuito de assegurar uma série de invariáveis dentre um conjunto de variáveis mantidas no interior de um sistema. O conceito de semiosfera, principalmente a partir da visão de Lotman, vê a cultura como um organismo não separando o biológico do cultural, não separando o homem do mundo. A semiosfera é um espaço que possibilita a realização dos processos comunicativos e a produção de novas informações, funcionando como um conjunto de diferentes textos e linguagens. Ligada a noção de fronteira e simetria especular, ela é a soma de tradutores que filtram e adaptam a penetração do externo no interno, promovendo uma simetria circular, ou seja, um intercâmbio dialógico, dispositivo gerador de sentido, onde o grau de organização da cultura está na passagem da desorganização interna para a organização externa, do caos para a ordem, ou vice-versa.
Edgar Morin na sua obra O método I: a natureza da natureza (1977)[1], desenvolve o conceito de sistema como uma realidade articulada, organizada e como uma unidade complexa. Tem em vista que é importante esclarecer as relações entre as partes e o todo. Comenta que esta “repercussão mútua” entre as partes não devem ser vistas isoladamente. Sugere, então, que os elementos devem ser definidos nas e por suas características originais, nas e com as inter-relações das quais participam, na e com a perspectiva da organização e do todo onde se situam. Indica, enfim, o circuito polirrelacional que compõe um sistema.
Tanto na tradição do estruturalismo saussuriano quanto no paradigma da teoria da informação, a diferença e, consequentemente, a quebra da simetria é a chave para uma possível compreensão dos fatores que promovem a convivência das diversidades culturais. Do ponto de vista da Teoria da Informação, a informação consiste em diferenças que fazem a diferença. Do ponto de vista da Lógica, é a origem da semiose na chamada distinção primária, o estabelecimento de uma fronteira num espaço previamente e aparentemente uniforme.
Neste aspecto, a cultura é um bem, como outro qualquer, suscetível de ser regido pelas leis do mercado e da concorrência, podendo se colocar, mas nunca evitar totalmente, contra a uniformização do mundo a fim de preservar a diversidade da criação cultural. Nós vivemos num período de globalização que tende a uniformizar as idéias e os modos de vida. Esta uniformização se faz principalmente sob a influência de um modelo americano de tecnologia audiovisual, por exemplo a Internet e o comércio eletrônico. Os mais radicais, extremamente ligados à sua história, às suas tradições, sentem uma angústia diante da ameaça que pesa diante de tudo a que estão ligados. A globalização é hoje acusada de tudo que pode ameaçar a vida das pessoas, de violação de uma “identidade cultural”. Para aqueles que defendem uma posição inversa, sem dúvida, isso é irracional e excessivo, quando não uma opinião negativa e restritiva. Defendendo a diversidade cultural do mundo, defende-se a biodiversidade. Nenhum país pode ficar indiferente ao avanço vertiginoso da tecnologia.
Portugal, nesta corrida pela modernidade, talvez por orgulho ou por inconsciência, negligenciou por acreditar ser possuidor de um patrimônio cultural inabalável, tão antigo e tão brilhante que poderia se tornar inesgotável e auto-suficiente. Ele não percebeu o perigo nascido dos métodos de produção e de distribuição industriais que aceleravam o mundo e a comunidade européia. Parece que, neste contexto, o Brasil não padeceu de cegueira onde há quem veja, pois nestas três últimas décadas cresceu e construiu a sua indústria audiovisual com circuito de distribuição integrado. Agora, passando para o lado ofensivo, Portugal tenta sobreviver ao abrigo das fronteiras. De fato, é preciso levantar e derrubar barreiras para retomar fôlego e se organizar, para assim que possível passar para a ofensiva sem complexo e com vitalidade no interior e no exterior das suas fronteiras.
Durante o ano que antecedeu as comemorações dos cinco séculos do descobrimento, pesquisa realizada pela DATAFOLHA (1999), avaliou uma série de aspectos relativos sobre as relações entre os dois países, revelando como as duas terras se avistam. Os portugueses ainda guardam de sua ex-colônia a visão de um país tropical. As praias e o sol são as idéias mais citadas pelos moradores de Lisboa quando convidados a dizer a primeira imagem que lhes vem à cabeça ao se falar do Brasil. Por sua vez, os brasileiros relacionam imediatamente o nome de Portugal ao Descobrimento e à colonização. O mais interessante, porém, é que a imagem do Brasil em Portugal não vem da escola, vem da TV. Além dos previsíveis jogadores de futebol, personagens como o escritor Jorge Amado e as cantoras Fafá de Belém e Daniela Mercury são citados espontaneamente. Atores de novelas e astros da música popular ocupam espaço privilegiado nas lojas portuguesas.
Tanto portugueses quanto brasileiros concordam, embora em graus diferentes, que o Brasil tem hoje mais importância no mundo do que Portugal. Sabe-se que a língua portuguesa seria totalmente isolada se não fossem as ex-colônias. O Brasil reforça e dá presença a Portugal. Pode-se dizer que a modernização de Portugal passa por sua ex-colônia. Tiraram a “tampa” da cultura lusitana. Diminui a imagem do eterno retorno e de mulheres vestidas de preto. Portugal, hoje, em termos de estilo de vida e de comportamento, está cada vez mais parecido com os ares e cheiros do lado de baixo da linha do Equador. Esta abertura começou há cerca de 25 anos, com a queda do regime salazarista (1932-1974), mas foi a entrada do país (1986) na Comunidade Econômica Européia, atual União Européia, que aqueceu a economia para a corrida da modernização, hoje em célere processo de desenvolvimento no que diz respeito aos produtos de consumos, tais como aparelhos celulares, shopping centers, automóveis e computadores. Assim, a partir dessas aproximações das fronteiras espaciais, econômicas e culturais, a oportunidade de adaptação e convivência com o novo, fez com que os portugueses encontrassem sinais exteriores de uma nova identidade cultural, mesmo que por meio de diversidades.
Num país em que os meios de comunicação eram até recentemente anacrônicos, a renovação tem sido decisivamente influenciada pelo know-how de sua antiga colônia atlântica, o Brasil. Esta aproximação se vê, principalmente, com a veiculação da programação da Rede Globo de Telecomunicações, associada a SIC, emissora portuguesa que dita comportamentos como sua sócia no Brasil. Valores como a extroversão, a descontração, a alegria, a sensualidade e a informalidade, tão presentes na cultura brasileira, chegam aos portugueses embrulhados em produtos modernos de consumo de massas. Tudo isso pela grande vantagem de se falar essencialmente a mesma língua. Ao contrário de outras gerações, a geração jovem portuguesa, com menos de 40 anos, demonstra gostar do Brasil, mesmo sendo aquele Brasil mítico, idílico e festivo.
Passando para as fronteiras da área da artes, em específico a literatura, a convivência cultural também está presente. A literatura brasileira é estudada, oficialmente, em várias universidades, como a de Coimbra, Lisboa e Universidade do Porto, ganhando destaques os estudos sobre as produções do século 20 com Drummond, Guimarães Rosa e Jorge Amado e, mais recentemente, com um menor número de pesquisadores, João Cabral de Melo e Neto, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Fonseca.
Mas é também a Literatura que repassa o estereótipo de preguiçoso que o português tem do brasileiro. Com Macunaíma, o herói sem caráter, retratado pelo modernista Mário de Andrade, modela-se, no imaginário do português, a idéia do brasileiro acomodado, folgado e vaidoso. São também parte desse patrimônio simbólico a idéia da indolência indígena e a crença da inferioridade da mestiçagem e dos feitos negativos do clima tropical sobre o trabalho. Mesmo repelidas, desde muito tempo, essas teorias deterministas sobrevivem num substrato ideológico que ajuda moldurar o perfil do brasileiro. Heranças colonialistas alimentam o imaginário português sobre o Brasil como um lugar de oportunidades, imensidão e potencialidade. Disso deriva a idéia de que os brasileiros, originados de índios, negros e, por que não, de europeus portugueses, não seriam capazes de explorar as potencialidades de seu próprio país por pouca dedicação ao trabalho.
Na europeizada Lisboa deste final de milênio, poucos são os que se recordam de uma figura outrora popular no imaginário português; o “primo rico brasileiro” daquele país alegre e jovial. Na década de 80, essa imagem positiva do Brasil sofre mais alguns golpes duros, com a já mencionada adesão de Portugal à União Européia. O país iniciou uma aproximação dos seus parceiros comunitários que tomou, em certos momentos, a seguinte forma: Portugal será tanto mais europeu quanto menos estiver ligado às ex-colônias, o Brasil inclusive. Nesta mesma década um novo golpe veio abater a imagem idílica do Brasil: a imigração. Essa invasão brasileira fez com que, aos olhos do nosso “irmão europeu”, os habitantes da terra brasilis, “alegres e joviais”, se convertessem em incômodos concorrentes. Curiosamente, o golpe decisivo na velha imagem do Brasil veio do próprio Brasil. A partir dos anos 70, a TV portuguesa passou a importar um número considerável de produtos brasileiros. As novelas abriram e mantiveram esse canal de entretenimento e, dentre outras opções de programação, o Brasil foi se tornando alvo permanente de atenção e alterou por completo a até então difusa imagem do país. É inevitável que essa situação contribuiu para ampliar os limitados conhecimentos do português sobre o nosso país. O contraste entre o colorido das telenovelas e o acinzentado salpicado de vermelho dos telejornais fez com que os portugueses desconfiassem da matiz do primeiro e conferissem uma dimensão desmesurada a matiz do segundo. Essa superexposição do Brasil pela TV brasileira em Portugal criou um efeito extra: a má vontade e a suspeita com quase tudo que vem dos trópicos.
Separados pelo Atlântico, unidos pelo fato histórico do descobrimento e pela semelhança lingüística, Brasil e Portugal convivem com suas fronteiras filtrando as suas diferenças, produzindo cultura que geram modos particulares de conhecimentos, dependentes de múltiplas condições socioculturais, as quais em retorno, num processo de retroalimentação, regeneram e condicionam a cultura de cada país.
Referências Bibliográficas:
LOTMAN, Iuri (1993). “A cerca de la semiosfera”. Critérios. Trad. de D. Navarro.
_____. (1994).”Para la construcción de una teoria de la interación de las culturas (el aspecto semiótico)”. Trad. de D. Navarro, Critérios, nº 32.
MORIN, Edgar (1976). L’ésprit du temps. Paris: Grasset Frasquelle.
_____. (1998). O método 4:as idéias. Trad. de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina.
Outras fontes:
IBGE (1998). Instituto Brasileiro de Geografia Estatística; Instituto Nacional de Estatística (Portugal); Marktest (Portugal).
DATAFOLHA (1999). Gerência de Pesquisa de Opinião. Rio de Janeiro, Lisboa. Período de 10 a 18 de março.
[1] Tradução e comentários de José Alcides Ribeiro em Imprensa e ficção no século XIX. São Paulo: UNESP (Prisma), pp. 15-16.